

Certa vez, existiu um contador de histórias inglês cuja pena podia nos transportar a reinos mágicos. Ele era conhecido em sua terra como mestre Neil Gaiman - e carregava dois grandes tomos em branco, à procura de palavras.
Era dito que apenas um desenhador mágico e seu pincel conseguiriam traduzir em painéis os pensamentos do escritor. Em resposta ao desafio, veio um homem chamado mestre Charles Vess – que não sabia que suas mãos estariam cansadas ao final.
Artistas unidos, iniciaram no ano de mil novecentos e noventa e um, uma jornada em busca de um livro encantado – que revelasse a quem o vislumbrasse um plano diferente –, onde estrelas tinham formas femininas e unicórnios ainda pastavam à luz da Lua.
Vários ciclos se passaram e a busca gerou um fruto.
Stardust era seu nome.
Neil Gaiman e Charles Vess, a dupla responsável por uma das melhores histórias de Sandman, Sonhos de uma noite de verão (Sandman 19, primeira história em quadrinhos a ser agraciada com o World Fantasy Award), colaborou novamente para produzir na década de 90 o romance gráfico Stardust.
Trata-se de um conto de fadas – não para adultos, como diz a orelha do livro –, mas sim, escrito como eram os contos medievais, antes de gênios como Walt Disney adaptarem-nos para os dias de hoje. Stardust é uma história repleta de magia e detalhes fabulosos, mas com passagens duras, violentas até, tipo de obra geralmente rotulada como "conto de fadas para adultos".
O livro conta a história de Tristan Thorn, um garoto comum da pequena cidade de Wall, que se apaixona pela menina mais bonita das redondezas. Para provar seu amor, o jovem promete buscar uma estrela cadente que ambos viram cair. Entretanto, o corpo celeste não caiu no mundo em que vivem, e sim, nas terras além- muro – no mundo das fadas. Cabe a Tristan juntar coragem para iniciar sua jornada e adentrar o reino mágico, se quiser conquistar sua amada.
O texto é bastante poético e flui com facilidade, tornando a leitura agradável e cativante. As belíssimas pinturas que o acompanham dão um toque especial à obra – ora bastante sutis como um pequeno detalhe no canto da página, ora arrebatadoras em impressionantes painéis de página dupla. É Charles Vess em seu auge, fazendo o que mais gosta: unicórnios, navios voadores, belas senhoras élficas e duendes grotescos.
A edição nacional, à exemplo de outra obra de Gaiman – Os caçadores de sonhos –, está espetacular. Papel de alta qualidade, impressão perfeita e acabamento de primeira. Claro que o preço salgado assusta de início, mas vale cada centavo gasto.
A única ressalva é a insistência nas "Notas do Tradutor", que aparecem em demasia (até três vezes em um único parágrafo!), atrapalhando o ritmo da leitura. A decisão de colocá-las entre parênteses no meio das frases é sofrível. Também merece destaque o fato de diversos nomes em inglês não terem sido traduzidos, optando-se pelo chato recurso das "notas". Enfim, detalhes interessantes que poderiam ter sido muito bem aproveitados em um glossário ou apêndice acabam chateando o leitor e tirando-o do mundo das fadas para explicações que ele poderia ter depois.
Notas à parte, Stardust é um livro indispensável em sua coleção.